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Video Girl: O Autor

Leia uma entrevista com Masakazu Katsura, o pai das Video Girls
Masakazu KatsuraMasakazu Katsura nasceu no dia 10 de dezembro de 1962 e é um dos desenhistas de mangá mais conceituados do Japão. As garotas que ele desenha são – literalmente – fantásticas e têm fãs em todo o mundo, inclusive no Brasil, onde Video Girl Ai, uma de suas mais famosas obras, está fazendo grande sucesso. Além de ser pai de Video Girl Ai, Katura é autor de outros mangás de grande sucesso no Japão. Seus principais trabalhos são: Wingman (1983), Video Girl Ai (1989), DNA2 (1993) e I’s (1997) – muitos dos quais viraram animes. Vale dizer que Video Girl Ai foi um divisor de águas dentro do seu conjunto de trabalhos. Foi a partir desta obra que o artista mudou radicalmente o seu traço, tornando-o menos caricato, como é visto em Wingman, e mais realista. Nesta surpreendente entrevista concedida no prédia da própria Shueisha, a editora de Video Girl Ai, Samurai X e de outros quadrinhos de sucesso, ele nos contou sobre sua carreira, sobre a criação de seus mangás e sobre Batman.

Quando e por que você resolveu fazer mangás?
MK: No ginásio, eu queria ter um aparelho de som e o prêmio do concurso de mangás da Shonen Jump era exatamente o preço do aparelho. Foi o principal motivo para começar a desenhar. Antes disso eu não desenhava mangás.

Mas você lia mangás.
MK: Não. Eu preferia assistir TV. O que assistia na TV? MK: Programas normais. Eu assistia Ultraman, Kamen Rider, essas coisas que todas as crianças assistiam na época.

Então você adorava assistir live-action?
MK: Acho que do mesmo jeito como todas as outras crianças. Não fui um fã excepcional. Eu não era tão ligado em mangás e coisas do gênero.

Mas então o que foi que o fez continuar a fazer mangás a ponto de ser um dos principais autores do Japão?
MK: Achei divertido criar histórias. Fora isso, eu não me conformava com a idéia de não me classificar nos concursos e por isso não parava de tentar. Comecei a mandar os trabalhos no terceiro ano do Ginásio e continuei durante os três do Colégio. Foram quatro anos deixando o estudo de lado e desenhando mangás. Quando reparei eu tinha virado profissional.

Qual foi seu primeiro trabalho profissional?
MK: Foi um mangá chamado Tenkousei wa Hensousei? (O Aluno Transferido é um Aluno Disfarçado?), de 1981. Foi com esse trabalho que ganhei o concurso e foi meu primeiro trabalho publicado na Shonen Jump.

Mas um ano antes disso você havia ganhado o Prêmio Tezuka com um trabalho chamado Tsubasa, não foi?
MK: Mas essa história não foi publicada. Portanto foi com a história fechada Tenkousei wa Hensousei? que estreei como profissional.

Qual foi o seu primeiro sucesso editorial?
MK: Foi o Wingman (publicado na Shonen Jump em 1983). Masakazu Katsura

O que você fazia antes de se tornar autor de mangá?
MK: Eu era estudante. Estava no terceiro colegial quando me classifiquei com Tsubasa. Depois disso entrei numa Escola Especializada de Arte e Design. Quando comecei a desenhar o Wingman eu estava no segundo ano. Depois que comecei a publicar já não dava mais tempo de ir para a Escola, por isso tive que abandonar.

Quais ou quem foram as suas influências?
MK: Não tive nenhuma grande influência. Às vezes acabamos sendo influenciados sem notar por conhecidos como o Akira Toriyama e outros ilustradores e designers, mas conscientemente não me inspirei em nenhuma obra ou autor. Não costumo ler mangás. Gosto mais de cinema. Acho que isso teve mais influência no meu trabalho. Pessoalmente gosto de filmes de ação.

O personagem Wingman tem muito a ver com os personagens de live-action, não?
MK: Passei a me interessar mais pelos seriados de live-action quando já estava no colegial. Os heróis sempre são interessantes, mas o que mais me impressionava era o fato de criar um universo completamente estranho. Na época que criei Wingman eu gostava desse universo.

Como foi o sucesso do desenho animado do Wingman?
MK: Não tenho certeza, mas acho que foi um sucesso normal. Não tenho números, mas não foi nada excepcional. Só que graças à série de TV, acho que fiquei mais conhecido. De vez em quando encontro pessoas que falam que me conhecem através do anime. Isso foi muito bom.

É verdade você fez um do Wingman você mesmo, é verdade?
MK: Na época o produtor da Toei me aconselhou a encomendar o figurino a uma empresa especializada nisso. Na verdade não fui eu que fiz o figurino.

De onde surgiu inspiração para criar Video Girl Ai?
MK: Eu sempre gostei de envolver um pouco de ficção científica nas minhas histórias. Como era para ser uma história de amor, achei que seria mais interessante se eu conseguisse fazer algo um pouco diferente. Na época, as vídeolocadoras estavam se espalhando por todo o Japão. Pensei que poderia aproveitar esse fato para a minha história. Achei interessante que a pesonagem saísse de dentro de um vídeo.

Quer dizer que as suas obras sempre partem de idéias simples? Você não planeja tudo antes de começar a desenhar?
MK: Não, nunca planejo muito. Gosto de aproveitar esses cliques que podem se tornar boas idéias.

Então você não planeja a continuação? Quando você inicia uma série de mangás, quantas histórias planeja?
MK: Tenho sorte se tenho dois ou três capítulos na cabeça quando começo a desenhar. Depois que o primeiro volume é lançado, nem tenho tempo para pensar. O máximo que consigo fazer é pensar e desenhar o capítulo semanal dentro do prazo.

As personagens desse mangá foram baseadas em pessoas reais?
MK: Não. São personagens típicos de histórias de amor. Por exemplo, o personagem masculino precisa ser desleixado, senão não dá história. Mas eu prefiro personagens sérios.

Qual o seu personagem favorito de Video Girl Ai?
MK: Acho que é a Ai-chan. Pode ser surpreendente, mas não sou muito fã do meu próprio trabalho. Não releio os mangás que faço, nem lembro em especial de episódios. Existem autores que se envolvem profundamente com seus trabalhos, mas eu não sou esse tipo de autor. Eu mantenho uma certa distância com o meu trabalho. Olho para a ação dos meus personagens e penso: “Nossa, ninguém faria isso” (risos).

Tem alguma história ou episódio do Video Girl Ai que tenha marcado?
MK: Já faz tanto tempo. Não me lembro mais (risos).

Você se envolveu na produção do OVA de Video Girl Ai?
MK: Não me envolvi muito. Só dava uma checada no material que me passavam. Opinei um pouco quando sentia que estavam alterando muito o clima da história, mas praticamente deixei tudo por conta deles.

Também teve o filme com atores do Video Girl Ai, nele você se envolveu?
MK: Sim, neste caso eu me envolvi desde o roteiro, indicando a linha que gostaria que seguissem. O filme foi uma experiência legal. Havia entrado num set de filmagem pela primeira vez e achei a experiência muito estimulante. O trabalho de um desenhista de mangá é solitário, mas lá era bem diferente. O trabalho de equipe, a tensão na hora da filmagem.

Em Video Girl Ai o seu traço mudou completamente comparado com o da época do Wingman, qual foi o motivo dessa mudança?
MK: Para mim foi uma coisa natural. Queria fazer algo realista, mas não queria fazer um realismo no estilo gekigá, queria fugir um pouco daquele estilo bem mangá do Wingman. O resultado foi a Video Girl Ai.

Você já tinha essa vontade de buscar um traço realista desde o Wingman?
MK: Não, naquela época não. Desenhei duas séries diferentes e mais algumas histórias fechadas entre o Wingman e Video Girl Ai, a vontade surgiu mais na época da Video Girl quando busquei desenvolver mais o lado romântico da história.

E o seu traço se manteve nessa linha desde então?
MK: No caso do DNA2 e da Shadow Lady, eu tinha a intenção de fazer uma coisa mais mangá ou cartoon. Mas acho que não consegui sair muito do traço que absorvi (risos).

Dependendo do trabalho você pretende voltar a fazer aquele traço bem mangá da época do Wingman?
MK: Acho que não consigo mais (risos).

A partir de Video Girl você também começou a caprichar nos “ângulos de câmera”. De onde você tira aquelas idéias?
MK: Na época que teve aquele filme da Video Girl com atores reais que participei no roteiro, também foi uma época em que me interessava muito por filmes. Isso deve ter me influenciado bastante porque passei a pensar bastante em olhar como uma câmera. Só que acho monótono filmar de ângulos normais, por isso ficava imaginando ângulos inusitados como botar a câmera por trás de um cinzeiro. Não sentia graça de olhar sempre de um ângulo normal. Foi uma época de bastante experimentação.

Você se baseia em livros de fotos para desenhar daquele jeito?
MK: Não tenho muito material de referência. Faço mais de cabeça.

Como é saber que Video Girl está sendo publicado no Brasil?
MK: Me perguntam essas coisas em todos os países que vou (risos), mas esta é uma história que rola no Japão, com referências à sociedade japonesa. Se fosse uma aventura de um país indefinido eu entenderia, mas a Video Girl é uma coisa bem japonesa. Isso me deixa muito curioso e ainda tenho dificuldades de assimilar a idéia (risos).

Depois de Video Girl Ai foi a vez do DNA2. Como foi que surgiu a idéia da história?
MK: Não me lembro direito… No caso do Wingman e de Video Girl Ai eu tinha certeza do que queria fazer. Já os outros trabalhos foram feitos sob uma pressão para fazer novas histórias (risos). As idéias não eram inteiramente minhas e por isso não me lembro direito de onde elas surgiram.

E no caso de IRIA?
MK: Iria eu fiz porque me pediram. O diretor Keita Amemiya era meu conhecido. Mas não foi ele quem me pediu. Eu também conhecia alguns membros da produtora e foram eles que me chamaram na hora em que surgiu a história da animação.

O design dos uniformes da Iria e do DNA2 não ficaram um pouco parecidos?
MK: No caso da Iria eu precisei me basear no design que já existia no filme live-action, mas dei um toque meu nele. Talvez seja por isso que se pareça com o uniforme do DNA2.

No caso da Shadow Lady, houve comentários de que essa história é o Batman estilo Masakazu Katsura. Isso é verdade?
MK: É mentira (risos). Eu publiquei a história pela primeira vez numa revista chamada V Jump. Eu queria fazer uma história cheia de ação e, de fato, foi numa época em que gostava do Batman. A V Jump é uma revista com mangás em estilo de quadrinho americano. Portanto puxei um pouco para os comics americanos. Mas quando fiz a história para a Shonen Jump, eu estava curtindo o Máscara, aquele com o Jim Carrey, e tinha vontade de fazer uma comédia mais maluca. Acho que foi mais por aí. A versão V Jump da Shadow Lady está na minha coletânea de artes chamada 4C.

Depois disso foi o I’s. O que queria fazer no I’s (leia “ais”)?
MK: Não sei se deveria contar isso, mas em I’s haviam me pedido para fazer uma história de amor sem colocar nada de fantasia ou ficção científica (risos). Foi um desafio para mim porque dentre os meus trabalhos era um mangá supernormal onde precisei explorar a vida cotidiana.

E quanto ao Batman? Parece que você é um grande fã dele…
MK: É verdade, mas isso já faz mais de 10 anos. Agora não sou mais tão fanático, mas na época do lançamento do primeiro filme eu gostava bastante. Cheguei a comprar alguns aparatos do Batman através de leilões da Warner. Fiz também um uniforme do Batman para mim.

Mas tem muitas referências ao Batman em Video Girl Ai.
MK: Pois é. Foi em 1989 e naquela época eu achei o filme o máximo e coloquei muita coisa no mangá.

De qual Batman gosta mais?
MK: Sem dúvidas do primeiro filme do Tim Burton.

O que acha do Batman do Kia Asamiya?
MK: Eu não li tudo mas… eu não tenho vontade de fazer o mangá do Batman. É porque para fazer a história do Batman eu preciso pensar no crime. O centro da história é pensar no vilão e que tipo de crime ele vai praticar e eu acho isso duro. Também não tenho nenhuma predileção pelos quadrinhos do Batman, não importa se é do Kia Asamiya ou do original americano. De vez em quando compro uns exemplares por causa da arte, mas para mim a figura do Batman se resume ao primeiro filme dirigido pelo Tim Burton. Gosto daquele personagem que parece ser meio doido. No caso de ter que fazer uma história falando sobre um crime… isso não me atrai. Em todos os países que vou me perguntam se não quero fazer o mangá do Batman, mas não me dá vontade. Poderia fazer uma ilustração, mas não o mangá.

Você não gosta de histórias envolvendo crimes?
MK: Não é de crimes que eu não gosto, não gosto de ter que inventar histórias de crimes. Se tiver que fazer uma história do Batman, de certa forma, ele ficará em segundo plano. Acho legal super-heróis, dá para criar cenas maravilhosas com eles, mas para criar uma história com eles precisaria pensar num crime e retratá-lo. E é na qualidade do vilão e do crime que vai depender o sucesso da história. Agora se me perguntarem se eu gosto do Batman a ponto de sofrer pensando num crime complicado para ele solucionar, daí eu diria que, se for para sofrer tanto, eu prefiro criar um super-herói meu. Masakazu Katsura

Mas o Wingman é um super-herói e você teve que pensar em vilões e crimes.
MK: O Wingman foi um dos meus primeiros trabalhos e falo de uma conclusão que cheguei depois de trabalhar 20 anos como profissional. Além do mais, quando revejo o Wingman, creio que esse aspecto da história não foi bem resolvido e que um dos maiores motivos do sucesso foram as personagens femininas como a Aoi e a Miku.

Então o que gosta de retratar no mangá?
MK: São as pessoas. Gosto de retratar os sentimentos delas. Não curto muito histórias de amor, mas sinto que tenho jeito para a coisa. Gosto de histórias que exploram esses detalhes psicológicos.

O próximo trabalho será nessa linha?
MK: Não (risos). Eu quero fazer uma história de ação (risos). É complicado. Sinto que não seja o meu forte e que goste mais de coisas psicológicas mas… não quero trabalhar nisso agora (risos). Mas como eu tenho essa tendência, mesmo numa comédia romântica como o I’s eu acabo criando histórias sérias.

Deu para sentir que em Video Girl Ai você caprichou bastante na interpretação das personagens.
MK: Era uma época em que fiquei vidrado com filmes e só pensava em meios de fazer meus personagens agirem de forma realista. No anime, eu havia pedido para que fizessem os personagens agindo de forma mais contida como num filme com atores, mas me disseram que isso não seria possível (risos).

Em um dos volumes de Video Girl você faz um tipo de homenagem à Dragon Ball (na cena, a Ai-chan dá uma Shonen Jump com o Goku na capa)…
MK: Sério? Não me recordo. Deve ter sido apenas uma brincadeira. Talvez nem tenha sido eu quem fiz o desenho. Pode ter sido um de meus assistentes.

Você tem amizade com o Akira Toriyama?
MK: Dentre os criadores de mangás é um dos meus melhores amigos.

Você gostaria de visitar o Brasil?
MK: Eu adoraria, mas não gosto de viajar. O perído que fico dentro do avião me deixa agoniado. Chegando no destino eu acho superdivertido. Mas a viagem…

Se tivesse uma máquina de teletransporte?
MK: Daí iria com todo o prazer (risos).

Pode mandar uma mensagem para os fãs brasileiros?
MK: Ainda vou continuar criando mais e mais histórias e espero que possam gostar delas também.